Tudo junto e misturado

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carta da prisão

Do livro cartas da prisão editado em 1978 (4ª edição), uma das cartas enviadas por Frei Betto enquanto esteve preso por ter favorecido a fuga, do país, de alguns jovens implicados nos movimentos estudantis que se seguiram a 1964.

13/02/ 1972

Caríssima irmã Y.

Só agora veio parar em minhas mãos sua carta de 15/12/71, escrita em Cataguazes. Após esta já recebi a de 23/12, que é a ultima. Como foi de retiro? E as palestras do Rolim? Estou ansioso por saber as novidades daí. Como aqui é sempre a mesma coisa a gente fica na expectativa dos acontecimentos exteriores. Afinal, você leu o documento de sínodo sobre a “justiça no mundo”? Eu gostaria muito de comentá-lo. Talvez suas preocupações atualmente sejam propriamente relacionadas com este tema. Então diga o que podemos comentar nas cartas, pois achei proveitoso o período de nossa correspondência em que falamos sobre a catequese. O que não gosto é ter que ficar em cartinhas protocolares.
A questão da justiça é a que mais me preocupa e é por ela que estou aqui. O que me espanta ainda é o fato de que o magistério da Igreja não tenha conseguido abordar as próprias causas da injustiça no mundo hoje. Ficamos sempre nos sintomas – a miséria, o analfabetismo, o desemprego, o desnível entre as classes sociais, a mortalidade infantil etc. – e não vamos a raiz da questão: por que tudo isso? Para responder a esta questão a doutrina cristã terá necessariamente que contar com o auxilio da economia, assim como hoje é impossível fazer exegese bíblica ignorando a arqueologia, a hermenêutica, a paleontologia etc.
Não é mais possível considerar o contraste riqueza-pobreza como algo tão natural e inevitável como o dia e a noite.
Todos nós sabemos que o homem pode perfeitamente solucionar esse problema, assim como hoje é capaz de mudar o curso dos rios, pisar na lua e dar a volta ao mundo em poucas horas – o que soaria como fábula para nossos avós. E porque nos países capitalistas o subdesenvolvimento se expande entre amplas camadas da população, enquanto uma pequena parcela detém nas mãos a riqueza?
Considerar essa situação como resultante da ganância dos ricos é supor que se eles quisessem, tudo poderia ser diferente. De fato é resultado da ganância, mas modificá-la já não depende da vontade pessoal deles – é a própria essência do sistema capitalista que estabelece a desproporção social.
Meu avô tinha um laboratório. Produzia soro que era vendido aos hospitais. Era seu meio de produção, em pequena escala. De repente o mercado foi invadido pelos grandes laboratórios estrangeiros que, por disporem de grande capital, produziam soro de melhor qualidade e a menor preço. Meu avô perdeu sua clientela e seu meio de produção. Por que ocorre isto?
Antigamente cada trabalhador era dono de seus instrumentos de produção. O camponês tinha seu pedaço de terra e ali plantava e criava animais para alimentar sua família. Tudo o que ele consumia, exceto o sal, era produzido em seu pequeno sítio. Os filhos ajudavam no trabalho, que não era muito, pois se produzia o suficiente para o consumo familiar. Dessa pequena produção às vezes sobrava um pouco. A colheita fora favorável e havia trigo em abundância. Então o camponês se dirigia ao mercado da cidade onde trocava seu excedente de trigo por um saco de sal ou uma manta de lã. Trocava-se mercadoria por mercadoria.
Veio a moeda para facilitar a troca de mercadoria. Ela permitia que o camponês vendesse o seu trigo no sul e fosse comprar sal no norte. Portanto a mercadoria era trocada por dinheiro que era trocado por mercadoria. No início e fim da transação comercial estava a mercadoria. O dinheiro era apenas um meio que facilitava a troca.
Hoje é diferente. O que está no início e fim da transação comercial é o dinheiro. Você vai com dinheiro ao mercado, compra uma mercadoria e revende para obter dinheiro. É o caso do capitalista. Ele compra, com seu capital, matéria prima e máquinas, faz o produto e revende no mercado para obter mais dinheiro. Em que momento da história a situação se inverteu?
A relação se inverteu quando um grupo de homens se apoderou dos instrumentos de produção dos demais homens. Assim os velhos sapateiros que faziam sapatos em casa ficaram na miséria quando apareceram no mercado sapatos produzidos em escala industrial, de melhor qualidade e por menor preço que o produto artesanal. O pequeno produtor tornou-se operário assalariado, pois tanto a extração da matéria-prima como a manufatura passaram ao controle do capitalista, com quem o pequeno produtor artesanal jamais poderia concorrer.
É interessante observar que o capitalista gasta o seu capital na compra de matéria prima e máquina, na construção da fábrica, no salário pago aos operários e no fim vende o seu produto e nisso obtém mais capital. Alguém poderia supor que aquilo que foi produzido é vendido por tão alto preço no mercado, que daí só pode resultar um lucro fabuloso para o capitalista. Não é bem assim, pois o industrial não pode vender o que fabrica pelo preço que deseja – tem que vender pelo preço que esteja accessível aos compradores. É obrigado, no regime de concorrência, a adaptar as oscilações do mercado. Se cobrar muito pelo que vende, todo mundo vai comprar no outro produtor e o primeiro irá à falência.
Assim o lucro do capitalista não é exatamente no preço que cobra pelo seu produto. É aqui que se situa o principal da questão: nas compras que o capitalista faz para poder estabelecer condições de produzir (compras de matéria-prima, máquinas, transporte etc.) há uma mercadoria que é igualmente capaz de produzir mercadoria: é a força de trabalho do operário. O operário é um homem que, desprovido de qualquer instrumento de produção, sem condição de produzir qualquer coisa por conta própria, única coisa que ele tem para vender é a sua força de trabalho. O industrial compra essa mercadoria (a força de trabalho) e paga por ela o suficiente para que ela possa renovar-se a cada dia e reproduzir-se: o salário-mínimo. Esse salário corresponde ao mínimo necessário à alimentação, moradia e vestuário do operário, de modo que diariamente ele possa voltar à fábrica para produzir.
Ocorre que em duas ou três horas de trabalho diário o operário produz o equivalente ao salário que recebe. Mas ele trabalha no mínimo oito horas por dia. Portanto, as cinco horas restantes ele trabalha de graça para o capitalista. É desse trabalho excedente, cujo produto é inteiramente absorvido pelo industrial, que o capitalista extrai sua maior parte do lucro, e assim aumenta assustadoramente seu capital.
Por que a Igreja não vê isso? É claro como o sol e, no entanto, tem gente que acha justo o salário do operário. Não é justo nem a própria existência de operários trabalhando para um patrão. É uma gritante injustiça que existam homens obrigados, para sobreviver, a alugar por baixo preço sua força de trabalho.
Nessa colocação há muitos aspectos incompletos. Procurei apenas expor alguns elementos essenciais. Gostaria de saber o que você pensa a respeito disso. Como vê a questão da justiça social, em que medida ela é praticada.
Sei que esta carta é pouco pessoal. Mas por outro lado considero importante abordarmos assuntos como este, pois além da troca de impressões e sentimentos a correspondência deve servir à troca de idéias e opiniões.
Fico por aqui aguardando sua resposta. Um grande abraço do F., do I.e meu à J., E., S., L., L., M. de L., todas as irmãs e especialmente a você, com muita amizade.



Carlos Alberto Libanio Christo, o Frei Beto da ordem dominicana brasileira, foi preso e condenado a quatro anos de detenção por crimes de natureza política.

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