Tudo junto e misturado

quinta-feira, 25 de março de 2010

As desventuras de uma anciã num metrô alagado de SP

Esse é um texto da mãe da NaMaria, do blog NaMariaNews, ela é ótima. O texto original está aqui.

Há pelo menos 25 anos eu não entrava no metrô em São Paulo. A idade vai chegando e todo mundo fica preocupado comigo, então desisti do metrô. Quando preciso ir para qualquer canto ou me levam ou arrumo um taxi. Também desisti do ônibus porque da última vez levei um tombo danado, me quebrei quase inteira, foi um trabalhão consertar os ossos; visivelmente o motorista era louco. Também desisti porque eu dava o sinal e eles não paravam para eu entrar, quando eu entrava eles queriam que eu saísse rapidíssimo e não davam tempo nem de eu por meus pés no chão da rua, aceleravam a toda.

Mas eu sempre tive vontade de passear de metrô e trens, principalmente com essas propagandas todas mostrando que se pode até dançar dentro dos vagões e plataformas, tamanha a comodidade que alegam ter. Há meses venho combinando e descombinando com minha filha e umas amigas. Estas acham que sou louca de querer "passear do metrô", minha filha nem fala mais nada, só concorda e me diz "andorinha que dorme com morcegos acorda de ponta-cabeça". Mas tem coisa mais prática do que metrô, gente? Fala sério, tem não. No mundo inteiro isso é possível, porque aqui haveria de ser diferente, uai?

Então combinei bem certinho com a NaMaria e a Lulu, minha amiga, a única que topou a aventura. Minha filha disse que eu só iria se ela estivesse junto. Ela também me mostrou lugares legais para visitar que estivessem próximos às estações. Mas eu já sabia que queria ir ao Masp, Museu da Palavra e Pinacoteca e se desse, queríamos passar pela José Paulino para ver o quanto mudou com a saída dos judeus e entrada dos orientais (faz 23 anos que não vou até lá!). Tudo num dia só. É bom dizer que Lulu, a minha amiga, tem 80 anos, mas está firme e forte - ela só é um pouco lenta.

E lá fomos nós, felizes da vida, com o sol. Partimos da estação Sumaré, que sempre quis conhecer e vi de onde se penduravam em cordas aqueles meninos, vi a avenida, vimos tudo porque descemos lá para fotografar e provar que lá estivemos. Depois fomos rumo à estação Paraíso, mas já não gostei tanto mais. No primeiro trecho o trem era novinho, verde UTI, sem TV, mas com ar funcionando bem. Percebi que havia menos bancos, mas o espaço para ficar de pé era bom. Mas no Paraíso já começou a complicar e entendi o motivo de tanta preocupação com os velhos. O que significam aquelas baias? A gente fica espremido naquilo e todo mundo empurra todo mundo para entrar e sair dos trens. Não falei nada porque lembrei do dito das andorinhas e minha filha me mataria se eu desistisse. Lulu nem abria mais a boca. Estava cheio e ninguém nos deixou sentar, era abafado, quente, todo mundo grudado. Para sair na Luz foi outro problema, porém menor do que para entrar nos trens.

Foi então que os verdadeiros suplícios começaram. Gente, o que é aquilo? No meio do caminho escutamos trovões altíssimos, seguimos em frente e a cara da minha filha era aquela coisa: "eu disse que ia dar m*$#*%". E deu. Depois de passar por duas catracas começou algo semelhante a uma tempestade no deserto. Mas era sujeira! Uma ventania colossal resolveu limpar o forro da estação e toda sujeira acumulada em anos passou a voar em nós todos, eram bolas de poeira imensas. Minha filha puxou-nos para dentro de uma farmácia, porque tenho asma e seria um perigo respirar aquela imundície. O pessoal não gostou muito. Lulu estava quase cega a esta altura.

Quando pensamos que havia melhorado e podíamos sair, começou a brotar barata de todos os cantos. Elas estavam caindo do teto? Sim, mas também de qualquer buraco. Não suporto barata, se tem uma coisa de que não gosto é barata. E elas vinham de todo canto, para o nosso lado. Resolvemos mudar de lugar e quando tentamos, vimos que além dos insetos e da sujeira, estava entrando água na estação. Como pode? Ficamos sabendo que lá fora estava um dilúvio e a água entrava pelas escadas rolantes, escadarias, jardim ao lado do "atendimento ao usuário"... Era água que não acabava mais. Foi quando acabou a luz, as pessoas gritavam mas continuavam andando, no escuro. A luz foi e veio várias vezes. E a água aumentando, aumentando, começou a cair do teto. Quase não tínhamos mais onde andar, chegar ao Museu era impossível. Para aumentar a provação, as pessoas que tomariam os trens na plataforma ficaram desnorteadas porque fecharam com cones muitas das escadas. Apareceu um homem do metrô gritando para onde as pessoas deveriam ir se quisessem chegar em Guaianazes, então elas corriam naquela água, caíam na escada que estava parecendo a cachoeira de Paulo Afonso. Estávamos nesta hora perto de uma banca de biscoitos, que ainda estava com o piso seco. Mas de repente a água começou a jorrar do teto, cada vez mais forte, tivemos de sair, voltamos para perto da última catraca de saída. Foi quando vimos os ratos. Tinha muito rato tentando sair da chuva! Enormes. Também odeio rato, imagine meu desespero. Lulu estava quase enfartando. Minha filha pensava em como nos tirar dali sem nenhum AVC.

Ficamos encostadas perto daquelas catracas e o pior de tudo foi quando chegaram as moças da limpeza. A que estava diante de nós dispunha de um balde de 5 litros e um pano de chão. Seu trabalho consistia em secar o oceano com um paninho. Então ela mergulhava o paninho naquela água imunda e torcia no balde. Sem botas, luvas ou qualquer proteção. Em seu uniforme estava escrito FAÍSCA - SERVIÇO LEVE. Leve? Só se for para o dono da terceirizada do metrô que não via, muito menos fazia aquilo. Sísifo tem uma vida de marajá perto daquela moça. Chegaram outras como ela bem depois, pelo menos tinham rodos. O problema é que não havia ralos. Para onde levariam aquela porcaria toda? Incrível que não haja saídas estratégicas de água naquela obra colossal. Depois descobrimos, porque minha filha foi falar com a moça: ficava a uns 70 metros dali, era preciso contornar catracas, pilastras, pessoas... para chegar no ralo, que era uma grade de 1 metro, no chão. Em seguida chegou um rapaz dessa Faísca para ajudar as meninas e seus paninhos. Ele era doido e corria feito um alucinado, empurrando a água em cima das pessoas.

Tivemos de sair dali, fomos para perto de um orientador de usuários ou algo assim. Senhor simpático, muito esclarecedor. Já que estávamos ali perguntamos muitas coisas, reclamamos da falta de proteção dos funcionários, da falta de ralosin... Soubemos que essa Faísca foi realmente terceirizada e faz a limpeza do metrô. Já ele fazia parte da Power. Essa empresa pertence a Tejofran (NaMaria já ficou empolgada e lascou lenha nas perguntas). Faz muitas coisas no metrô essa Tejofran, mas como o contrato venceu, entrou a Power no lugar dela. Fácil assim: para continuar eternamente nos negócios, tenha sempre mais de uma empresa (com nomes diferentes). O senhor odeia o trabalho que tem (seja de quando era Tejofran, seja Power), mas como está para se aposentar tenta aguentar cada dia. Ele disse que tudo piorou com as terceirizações, trabalha nisso desde 1995 e nunca viu tanta tristeza como ultimamente.

Perguntei a ele se uma empresa como essa Faísca (ou o Metrô) não teria um aspirador de água para resolver o problema e não maltratar os funcionários dessa maneira que vimos. Ele respondeu assim: "A senhora acha que um patrão desses está preocupado com a dignidade do funcionário?" Aquele senhor tinha toda razão.

Resolvemos voltar para casa. A nossa sorte foi não termos ultrapassado a última catraca, então foi mais fácil fazer o caminho contrário, apesar daquelas rotas pré-determinadas, daquelas baias (vai ver que é por isso que há tantas lojas fechadas: puseram baias, cortaram o livre trajeto público). Mas estávamos tristes, não pelo fato de o passeio ter dado um pouco errado, mas pelo que vimos sobre tratamento humano. Nem as baratas incomodaram tanto quando ver aquela moça solitária secando um mar inteiro. Para tentar nos alegrar minha filha entrou numa daquelas lojinhas e nos presenteou biscoitos e panetones, "pra vocês não saírem de mãos abanando". Eu fotografei tudo com meu celular, mas ainda não sei como tirar as fotos dele, preciso aprender; foi pena que a bateria da máquina tivesse acabado na hora errada.

Agora NaMaria pergunta a cada instante: mãe vai querer passear mais de metrô? Precisa conhecer a Sé às 18 horas, mãe. É imperdível. Depois vamos até a Zona Leste no rush... A senhora vai amar.
Eu acho que preciso pensar mais sobre isso.
Ah, antes que eu me esqueça: a propaganda do Metrô na TV é enganosa. Absolutamente enganosa.

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