Tudo junto e misturado

terça-feira, 27 de abril de 2010

Fernando Pessoa / obra poética 637

Na noite que me desconhece
O luar vago transparece
Da lua ainda por haver.
Sonho não sei o que me esquece,
Nem sei o que prefiro ser.

Hora intermédia entre o que passa,
Que névoa incógnita esvoaça
Entre o que sinto e o que sou?
A brisa alheiamente abraça.
Durmo. Não sei quem é que estou.

Dói-me tudo por não ser nada.
Da grande noite embainhada
Ninguém tira a conclusão.
Coração, queres? Tudo enfada
Antes só sintas, coração.

Fernando Pessoa

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